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Entrevista Paulo Santos: “Fotografia é uma arte, uma ciência! Não é só apontar a câmera e disparar.”


Ele podia ser mineiro por causa da timidez, mas o recifense Paulo Santos também sabe utilizar a arte de dizer aquilo que pensa, não sem antes fazer um breve silêncio como quem analisa com precisão o que vai proferir. Nascido em 1954, veio para o Rio com apenas 1 ano de idade. Pai sargento da marinha, mãe dona de casa. Antes de morar em Nova Iguaçu passou temporadas na Praça Mauá e no Morro da Conceição, também no centro da cidade. E atesta: “um lugar muito tranquilo”. Já foi vendedor, balconista, carteiro “sem concurso” em 1974. A agenda se mostra lotada nos dias atuais, já que agora se dedica a divulgar o seu mais recente projeto, o livro de fotografias “Baixada Fluminense em Preto e Branco”. Já foi em CIEP, feira cultural e em setembro já tem eventos programados em Queimados e na Casa de Cultura de Belford Roxo. Confira, a conversa que aconteceu nos corredores do Centro de Formação em Nova Iguaçu, semana passada.  

Quando decidiu virar fotógrafo?
Eu estudava topografia na UERJ e um amigo meu era fotógrafo. Ele montou uma loja de fotografia e chamou para dar uma força. Dividia meu tempo entre a topografia e a loja, pois precisava trabalhar. Apareceu uma proposta de trabalho em Rondônia e fiquei 6 anos lá em Porto Velho. Descobri que detestava topografia. Então me disseram que ali na assessoria de imprensa da Assembleia Legislativa da cidade tinha um laboratório de fotografia (Naquela época, as imagens dos rolos de fotografia precisavam ser reveladas graças a procedimentos que envolviam soluções químicas e papéis especiais para, em seguida, ficarem penduradas em pequenos varais até secar. Entretanto, tal método só podia ser empregado em salas bem escuras, daí o nome “laboratório”). Eles estavam precisando de um fotógrafo e como já tinha uma experiência na loja desse meu amigo, eu só profissionalizei o que já tinha de noção.

O que aconteceu depois?
Depois de trabalhar no laboratório, tornei-me assessor de gabinete de um deputado por 11 meses e aí começou a minha vida política. Isso foi em 1984, época da redemocratização do país, quando conheci e me integrei aos quadros do PT, além de ajudar a fundar a primeira sede da Central Única dos Trabalhadores (CUT) de Porto Velho. Depois até me tornei presidente, além de trabalhar em jornais da CUT, como o Guaporé. Fizemos história lá com a primeira greve do estado. O Teixeirão, que era um interventor do Território, ficou em pânico com a gente, pois achou que iriamos tirá-lo do poder, tipo um golpe de Estado!

Foi uma experiência política bastante rica, então.
Lá se permitia tudo. Desbravamos e criamos muita coisa. Não tinha nada lá! Chegamos a fundar 32 sindicatos! De professores, trabalhadores rurais, padeiros, engenheiros, pedreiros. Ajudamos na criação do MST em Porto Velho. Eu rodava o Estado. Fui candidato a deputado estadual, a vereador, tudo isso pelo PT. Aí lá pra 1990 as coisas começaram a ficar esquisitas. O grupo se dissolveu, teve diversas divergências internas e cada um foi cuidar dos seus interesses. Foi aí que eu disse pra mim mesmo que tava na hora de voltar pro Rio. Procurei o meu amigo da loja de fotografia e descobri que ele havia deixado a loja com a mulher dele e fundado um jornal chamado Maioria Falante, jornal que pertencia ao movimento negro. A sede era na Lapa e acabamos organizando uma exposição fotógrafica para a ECO 92 (Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento ocorrida no Rio entre 3 e 12 de junho de 1992 que reuniu 178 chefes de Estado), chamada “O negro e suas relações urbanas e rurais no Rio de Janeiro”. Foi única exposição porque ninguém pensou nisso. Éramos 4 fotógrafos responsáveis pela organização. Uma pessoa que era reitor da Universidade de Nova Iorque gostou muito do trabalho feito por mim e me fez um convite pra fazer um intercâmbio por um ano lá .

Você claro que foi né?
Não, não fui...(sem aparentar nenhum arrependimento). Aliás, recusei por quase um ano. Não quis ir. Nunca tive vontade de ir. Mas pelo menos recebi uma proposta para ir pro jornal O Dia, ali na sucursal de Petrópolis, também em função da exposição. 

Foi uma bela compensação! Como foi sua experiência no O DIA?
Você tinha que ir que ser criativo. Tinha de ter um olhar apurado para as coisas. Você tinha que matar um leão e isso faz parte do exercício do fotojornalismo.

Qual a sua foto mais inusitada?
Uma foto que tirei da Fábrica Brasil Industrial pra uma matéria. Era uma construção que lembrava o Quintandinha (o mais tradicional e luxuoso hotel da região, cuja fachada se assemelha a um castelo), de repente apareceram uns carneiros e a foto ficou bem bacana, dando uma paisagem mais europeia do que ela é naturalmente.

Era sobre esse tipo de situação que você se referia em relação a ser criativo?
Eu detestava fotografar buraco na rua, mas se precisasse tirar, teria que ter a minha marca. Certa vez, fizemos uma matéria sobre a degradação de rua de alguns bairros de Petrópolis. Tinha um buraco enorme na rua, quase uma cratera. Fiz o secretário de obras da prefeitura entrar no buraco e foi pra primeira página.

Ele não ficou irritado?
Aceitou numa boa. O pessoal achou bacana. Tinha muita reclamação do povo.

E depois?
Depois, pelo mesmo jornal, fui para a sucursal da Baixada em 1996. Passei a ser editor de fotografia da Edição de Interiores. Era uma editoria só para as cidades da região metropolitana, norte fluminense, região serrana e por aí vai. O Dia nessa época tinha 25 fotógrafos e 7 sucursais. Vendia 1 milhão de jornais por dia, mais do que a Folha de São Paulo. Hoje não vende 100 mil e tá demitindo muita gente.

E como veio essa vontade de fotografar a Baixada?
Foi com o jornal. Saí do Dia em 2001 e a partir daí comecei a trabalhar como fotógrafo free-lancer na Baixada. De tempos em tempos eu fazia algumas coletâneas de fotos. Foram vários livros até chegar a esse último que estou lançando. Eu tenho um que se chama “Nova Iguaçu em Imagens da Cidade”, fiz tudo sozinho.

As pessoas desses locais reconhecem os locais que você fotografou?
Quase nunca sabem. Vou te contar uma história. Quando estava em Belford Roxo eu fotografei uma área de proteção ambiental do local. Depois mostrei para um secretário de meio ambiente da região esse local para que ele admirasse. Não reconheceu e ainda duvidou que tivesse sido em Belford Roxo.

Como é trabalhar com fotografia na Baixada Fluminense?
É difícil. Por que a Baixada não tem o hábito de trabalhar com fotografia. Não enxergam a fotografia como arte. Não sabe nem a importância comercial de uma boa fotografia para algum tipo de negócio. Não e só clicar, tem todo um exercício profissional. É preciso ter um domínio da luz, ela pode mostrar o que você quer. Tem de ter bons conhecimentos, inclusive, de física.

https://forumgritabaixada.org.br/entrevista-paulo-santos

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