Pular para o conteúdo principal

II Encontro Estadual de Mães Vítimas da Violência


Evento reuniu 45 mães que tiveram suas vidas marcadas pela brutalidade do Estado. Grupos de trabalho foram organizados para elencar desafios a serem enfrentados e encaminhados para encontro nacional em maio na Bahia.


Do luto à luta. Foi esse o sentimento que tomou conta de quase 50 mães que participaram, na última quarta-feira (28/03) na Igreja de Santo Antônio de Jacutinga, Centro de Nova Iguaçu, do II Encontro Estadual de Mães e Familiares Vítimas da Violência. Organizado pela Rede de Mães e Familiares Vítimas de Estado na Baixada Fluminense e pela Rede de Comunidades e Movimento Contra a Violência, com apoio do Centro de Direitos Humanos de Nova Iguaçu e o Fórum Grita Baixada, as atividades não se concentraram apenas na difícil tarefa de desenterrar suas dores pessoais em função de tão brutais acontecimentos. Mas reunir forças para problematizar diversos aspectos de como o racismo, enraizado em diversas estruturas como o Poder Judiciário, sistema carcerário e legislação conivente com a violência de agentes de segurança, deve ser combatido e que políticas públicas podem advir dessas iniciativas. As participantes se dividiram em três grupos de trabalho temáticos. 1) Reparação Econômica, Psíquica e Social, 2) Direito à Memória e à Justiça e, por último, Sistema Prisional e Degase. 

Enquanto se organizavam, o Fórum Grita Baixada resolveu escutar uma dessas mães, para conhecer a sua trajetória de luta, semelhante a de tantas ali presentes. Leonor Oliveira teve o filho assassinado há 21 anos. Era um 1º de maio, Dia do Trabalhador. Leonardo foi morto em circunstâncias quase banais por um segurança de uma empresa privada de ônibus, com antecedentes criminais, porém nunca condenado pela Justiça. A história é surpreendente. “Meu filho entrou num ônibus, em plena luz do dia, e deu cinco reais ao trocador que, na verdade, era esse segurança. Ele ficou no lugar do outro trocador que não pôde ir. Sequer tinha vínculo empregatício, coisa que eu só fiquei sabendo durante a produção do inquérito. Mas ao dar o dinheiro, o segurança havia dito que não tinha troco e mandou meu filho descer. Ao se recusar, tomou um tiro na cabeça e teve seu corpo empurrado para fora do ônibus”, conta Leonor às lagrimas.

O veículo foi conduzido para a garagem por volta das duas da tarde, lavado pelo despachante e pelo  motorista pra retirar as manchas de sangue. Só depois da repercussão desse caso, é que o segurança foi preso e condenado. Agarrada a neta de 7 anos, que também participou da dinâmica com as mães, Leonor é temerosa quanto à vulnerabilidade de jovens pretos e pobres em relação à violência. “Eu olho pra ela e morro de preocupação, pois ela vai se tornar uma adolescente. Eu rezo todos os dias para que ela jamais faça parte de nenhuma estatística. Mas o que eu posso fazer? Vou colocar um chip? Como vou interferir na juventude dela?”, pergunta-se.

Depois de meia hora, os grupos organizaram as linhas de apresentação. Eis o resultado

O Grupo 1) Reparação Econômica, Psíquica e Social

Desafios:  Implementação da uma rede psicossocial dentro do SUS; Ampliação do fortalecimento das redes de apoio e proteção psicossocial e exercer força de pressão para a aprovação do FUNAVE (Fundo Nacional de Assistência às Vítimas do Estado).

Propostas: Articular e implementar em nível nacional, a Semana das Vítimas da Violência de Estado, cujo projeto de Lei 1789/16 foi sancionado pelo presidente da ALERJ, André Ceciliano (PT) e relatoria executada pelo deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL), em 7 de junho do ano passado. Dessa forma, o poder público institui a Semana Estadual das Vítimas da Violência, como parte do calendário oficial do Estado do Rio de Janeiro; Criar estratégias para a obtenção de recursos de forma emergencial para novos atos, manifestações, seminários, etc.

O Grupo 2) Direito à Memória e à Justiça

Desafios: A falta de investigação de forma mais qualificada para os casos envolvendo moradores pobres ou de periferias; Como reverter os efeitos da manipulação da mídia na sociedade que já pré-julga tudo o que se refere a ações progressistas dentro de algumas especificidades; Como ter acesso aos próprios direitos; Como responsabilizar criminalmente o policial nas três esferas governamentais (Governo Federal, Estados e Municípios); A criminalização da vítima e dos familiares; Dificuldades de se registrar os casos como homicídio.

Propostas: Haver mais autonomia das perícias criminais, completamente desvinculadas das Polìcias Militar, Civil e Federal. Com essa iniciativa, aumentar a taxa de esclarecimento de homicídios no País (proposta já em tramitação na Assembleia Legislativa) Muitas das condenações se dão baseadas, unicamente, em meras provas circunstanciais e não em provas materiais, que são produzidas a partir da análise técnico-científica de vestígios deixados na cena do crimeBanimento da Súmula 70, dispositivo utilizado pelo Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro que considera como prova incriminatória a simples declaração de agente de segurança quando do flagrante, apreensão e custódia de suspeito em atividade considerada ilícita. O uso excessivo dos testemunhos e do reconhecimento pessoal por policiais e juízes é criticado por especialistas. Esse tipo de prova é considerada essencial para o desfecho de investigações e processos no Brasil.; Organizar a criação de uma Comissão Mista formada por promotores e familiares para o acompanhamento dos casos de homicídio; Financiamento para mais atos e manifestações das mães.

Grupo 3) Sistema Prisional e Degase

Desafios: Desconstruir a naturalização de culpa que recai sobre as famílias, já que muitas das análises feitas, inclusive advindas de autoridades de segurança, insistem na tese de que “famílias socialmente desestruturadas” podem influenciar um suposto comportamento criminal, ainda que tal tese seja vaga e careça de maiores esclarecimentos; Garantir que presídios e o sistema Degase tenham apenas agentes mulheres nas alas femininas de suas unidades, sem a presença de homens, como vem acontecendo.    

Propostas: Que os agentes penitenciários e do Degase sejam claramente identificados; Elaboração de uma cartilha sobre o direito dos familiares; Garantir que as famílias saibam com rapidez sobre a localização de algum ente que tenha entrado em processo de custódia pelo Estado.

Participaram também a Rede Nacional de Mães e Familiares Vítimas do Estado, Frente Estadual pelo Desencarceramento, Mães de Manguinhos, Mães Sem Fronteiras, Mães de Maio. Tais desafios e propostas apresentados nos GT´s serão encaminhados em Encontro Nacional com as Vítimas da Violência em Salvador entre os dias 16 e 21 de maio. O encontro também trará representantes internacionais. Já há a presença confirmada de coletivos de mães vindos da Palestina, México e Estados Unidos.


10-04-18
https://forumgritabaixada.org.br/ii-encontro-estadual-de-maes-vitimas-da-violencia

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O Estado Brasileiro é julgado por seus crimes

Fórum Grita Baixada e movimentos sociais organizam o Tribunal Popular da Baixada Fluminense, na Praça do Pacificador. Imagine que por um dia apenas, o Estado Brasileiro pudesse ser personificado e, assim como qualquer mortal, responder em juízo por quase todos os crimes categorizados pelo Poder Judiciário ao longo dos séculos. A Praça do Pacificador, em Duque de Caxias foi palco, na última terça-feira, 11 de setembro, de um evento inovador que tentou abarcar tal realidade. Um tribunal popular foi montado para a condenação simbólica de uma entidade que afeta a vida de todos nós. Movimentos sociais como o Fórum Grita Baixada, Movimento Negro Unificado, Rede de Mães e Familiares Vítimas da Violência de Estado na Baixada Fluminense, Centro de Direitos Humanos da Diocese de Nova Iguaçu, Casa Fluminense, dentre outros, simularam um julgamento em que o Estado Brasileiro, na condição de réu, seria responsabilizado pelos seus crimes, especialmente os de genocídio contra a populaçã...

Prefeitura quer elaborar plano de Direitos Humanos

Fórum Grita Baixada e representantes da sociedade civil são convidados pela prefeitura de Nova Iguaçu  para expor encaminhamentos viabilizando construção de política pública O Fórum Grita Baixada, o Centro de Direitos Humanos de Nova Iguaçu, além de outros representantes da sociedade civil organizada participaram, na manhã do último dia 29 de janeiro, no auditório do Ministério Público, de reunião promovida pela Secretaria de Assistência Social da prefeitura de Nova Iguaçu para a elaboração do seu primeiro plano municipal de Direitos Humanos. Com o título “O papel dos Direitos Humanos nas Políticas Públicas”, a diretora de Direitos Humanos da pasta, Deise Marcello, apresentou uma breve historiografia sobre a construção de políticas de Direitos Humanos no mundo. Ao final de sua exposição, chamou para a composição da mesa, Dom Luciano Bergamin, bispo de Nova Iguaçu, a secretária de assistência social, Elaine Medeiros, o presidente do Conselho de Segurança Pública e Dir...

Grito dos Excluídos discute Segurança Pública e Educação em Nilópolis. FGB participa de duas rodas de conversa

Dando sequência a cobertura que envolveu a participação do Fórum Grita Baixada na 23ª edição do Grito dos Excluídos, nessa segunda parte entrevistamos o coordenador do coletivo RUA, um dos organizadores da manifestação popular em Nilópolis. O que é o RUA?   O RUA é um coletivo de juventudes que tem atuação em todos os estados do país. Surgimos após as jornadas de junho de 2013 por identificar que os modelos de organização política (partidos ou coletivos) não mais atendiam as demandas dessa nova geração; não acompanhavam o surgimento de novos atores sociais e novas formas de expressão política. E pouco conseguiam dialogar com um sentimento de descrença com o sistema político do país, tendo pouca capacidade de incidir sobre o discurso político de negação da política. Por que ser anticapitalista é lutar contra a exclusão social? Entendemos que o sistema capitalista é um sistema produtor de grandes desigualdades no mundo, e desta desigualdade sobrevive.  Uma pequ...